Jornalista:
Qual é a explicação, Sr. Presidente,
para que em 10 anos o Brasil tenha alcançado
esse desenvolvimento admirável? Estamos falando
do milagre brasileiro ou do milagre de Lula? Qual
é a fórmula para o que estamos vendo
hoje?
Presidente:
De fato, nos últimos anos temos colhido uma
safra de boas notícias, mas isso nada tem a
ver com milagres. É fruto de trabalho duro
dos brasileiros ao longo das últimas décadas.
Consolidamos a democracia, derrotamos a inflação,
retomamos o crescimento e estamos construindo uma
sociedade moderna e cada vez mais justa com todos
os seus cidadãos. Do meu período na
Presidência, iniciado em 2003, destaco como
as maiores conquistas a retomada do desenvolvimento
econômico e da capacidade do Governo de investir
na educação e na infra-estrutura, além
dos programas sociais voltados para as camadas mais
pobres da população. O impacto desses
programas foi muito positivo na redistribuição
da renda. Como resultado, cerca de 30 milhões
de brasileiros deixaram a pobreza, e 21 milhões
deles hoje fazem parte da nova classe média,
o que deu novo impulso ao crescimento econômico
e ampliou ainda mais nosso mercado interno. Adotamos
uma política externa mais assertiva, que investiu
na nossa relação com a América
Latina, África e Ásia, sem ignorar nossos
laços tradicionais com a Europa e os Estados
Unidos. Esse conjunto de medidas nos permitiu enfrentar
e superar a crise econômica mundial sem sobressaltos.
Jornalista:
Como o Brasil vê suas relações
com a América Latina? Como dar impulso a essas
economias, levando em conta as diferenças que
existem entre um Mercosul mais econômico, no
qual a entrada da Venezuela ainda está em dúvida,
uma CAN enfraquecida e uma ALBA que vê os EUA
como seu grande inimigo?
Presidente:
A América do Sul e a integração
regional são uma das prioridades da política
externa do meu Governo, e temos procurado aprofundar
esses laços com a região em várias
frentes. A integração física,
por meio da construção de obras de interconexão
viária e energética, por exemplo, é
fundamental em qualquer esforço de aproximação,
pois cria as condições práticas
para que pessoas e empresas façam negócios
e parcerias. Meus companheiros Presidentes da região
entendem muito bem essa necessidade, e temos trabalhado
com vários deles em projetos conjuntos de rodovias,
pontes, usinas hidrelétricas e linhas de transmissão
de energia. O segundo aspecto é o de aproximar
empresários e investidores, e aí também
a diplomacia presidencial tem contribuído muito,
porque sempre que possível os encontros presidenciais
são acompanhados de seminários e eventos
empresariais.
Além disso, o diálogo político
nunca foi tão estreito, como provam os avanços
na relação bilateral e mecanismos como
os encontros periódicos que mantenho com o
Presidente Chávez. Ademais, contribuem para
fortalecer nossos laços nosso empenho em consolidar
a União de Nações Sul-americanas
(UNASUL), em promover reuniões de alto nível
com outras regiões e grupos de países
do mundo – como a África e os países
árabes – e também em realizar
encontros como o do ano passado, na Bahia, com a participação
dos Chefes de Estado e de Governo da América
Latina e Caribe. Pela primeira vez na história,
nos reunimos para discutir nossos temas com uma agenda
definida pela região, sem ingerência
externa.
Acho natural haver diferenças de opinião
e de orientação, bem como a formação
de blocos de países com base na coincidência
de interesses. Quando essas diferenças vêm
à tona o importante é discuti-las com
serenidade. Na questão específica da
entrada da Venezuela no Mercosul, sempre a defendemos
e continuamos a defendê-la; nossa posição
é conhecida. O assunto está sendo analisado
no Senado brasileiro, onde também a base parlamentar
de apoio ao Governo tem defendido a mesma posição,
razão pela qual acredito que possamos ter boas
notícias em breve.
Jornalista:
De que forma os governos latino-americanos devem conduzir
suas relações com os Estados Unidos?
Presidente:
Cada país da região tem sua agenda bilateral
com Washington, com particularidades próprias,
e não creio que exista uma fórmula comum.
Além disso, posso responder apenas pelas relações
bilaterais do Brasil com os Estados Unidos, e nelas
vejo uma boa oportunidade com a chegada do Presidente
Barack Obama à Casa Branca. Temos mantido um
diálogo muito bom quanto aos temas de interesse
comum, não só os bilaterais, mas também
os regionais e os globais. Vejo no Presidente Obama
uma grande disposição para o diálogo
com a América Latina, ainda que os temas da
agenda doméstica, a crise econômica e
os conflitos no Afeganistão e no Iraque tenham
ocupado boa parte do tempo dele nesse início
de mandato. Não posso esquecer que também
mantivemos um diálogo muito bom com o então
Presidente George W. Bush, porém creio que
com Obama as circunstâncias são mais
favoráveis para uma aproximação
com a região. Na primeira oportunidade que
teve, neste ano durante a Cúpula das Américas,
em Trinidad e Tobago, o Presidente norte-americano
se reuniu com os Presidentes dos países da
UNASUL. Acho, no entanto, que esse passo foi apenas
o começo. É preciso avançar mais
e continuar atuando de forma coordenada diante de
crises como a de Honduras, provocada por um golpe
de Estado, que é algo que sempre devemos repudiar.
Esses fantasmas do passado não podem voltar
a fazer parte da história dos países
da América Latina, que ao longo das últimas
décadas têm realizado um grande esforço
para consolidar suas instituições democráticas,
felizmente com êxito.
Jornalista:
Qual é a diferença entre o socialismo
que o Sr. promove e o que lidera o presidente Hugo
Chávez? É sustentável o socialismo
do Século XXI que ele oferece?
Presidente:
Acredito
muito que cada país tem seu próprio
caminho, com base na sua própria história
e nas instituições que construiu. Ao
longo da minha vida, aprendi a não me prender
muito aos rótulos. Lembro que, na década
de 80, quando tentavam colar em mim algum desses rótulos,
como o de marxista, costumava responder que não
era marxista, e sim torneiro mecânico, função
que aprendi como metalúrgico. O que posso dizer
com segurança é que tanto Chávez
como eu, ainda que em países com realidades
diferentes, governamos com um grande compromisso para
com os mais pobres, aqueles que realmente precisam
do apoio do Estado para construir um futuro melhor.
O que ocorre é que isso gera desconforto, até
porque a apropriação do Estado pelos
mais poderosos foi, até há muito pouco
tempo, uma realidade na nossa região. Uma mudança
de rumos como a que tivemos em nossos países
sempre provoca resistências e ressentimentos
dos que se consideram prejudicados.
Só tenho, no entanto, autoridade para falar
do Brasil, onde conseguimos avançar muito.
Também enfrentei e enfrento setores poderosos,
que se mobilizaram para criticar o Governo e a mudança
de orientação em favor dos mais pobres.
Desde que assumi o mandato, procurei governar para
todos, mas especialmente para os mais pobres. Costumo
comparar essa atitude com a de uma mãe, que
cuida com carinho de todos os filhos, mas dedica mais
atenção aos que mais precisam dela.
Ao fazer isso, sofri muitos ataques, mas os fatos
mostraram que os programas sociais tiveram um efeito
multiplicador extraordinário, que vai muito
além da estatística dos 30 milhões
de brasileiros que superaram a linha da pobreza. O
reforço desse enorme contingente de pessoas
deu nova vitalidade e fez a roda da economia girar,
gerando mais riqueza e novas oportunidades.
Os próprios empresários nunca ganharam
tanto, graças a uma economia mais forte, por
causa da inclusão social. O grande erro dos
governos anteriores no Brasil foi o de tentar governar
para apenas um quarto da população,
queriam arrumar o País deixando de lado mais
da metade da população, e justamente
a parte da população que mais precisava
e precisa do Estado. Procuramos incluir quem estava
fora, queremos arrumar o País para todos, e
os resultados dessa política servem como um
bom exemplo, ao lado de outros que estão sendo
construídos na América Latina. Só
podemos ser organizados e fortes na região
se houver uma política voltada para todos os
cidadãos, e não somente para os mais
privilegiados ou para aqueles com maior poder de “lobby”.
Jornalista:
Apenas os processos eleitorais são a fórmula
para legitimar um Governo como democrático?
No caso da Venezuela há um canal de televisão
fechado. Muitos jornalistas agredidos. Mais de cem
rádios cujas concessões foram suspensas,
e agora presos políticos...
Presidente:
Não vou entrar nas questões internas
da Venezuela. Mas sempre que ouço no Brasil
críticas aos modelos de outros países
sul-americanos, costumo repetir que, como presidente
da República, não devo me intrometer
nos assuntos internos de outros países. Os
caminhos da consolidação democrática
são escritos pelas forças políticas
e sociais em cada país, e penso que os conflitos
de idéias e a participação da
sociedade são parte desse processo e ajudam
no amadurecimento das instituições.
Na
semana passada estive com o Presidente Uribe em São
Paulo, e uma repórter nos fez o mesmo tipo
de questionamento sobre eventuais mudanças
nas regras eleitorais na Colômbia. Também
naquele momento lembrei que a América Latina
tem um processo histórico de democratização
ainda muito recente, que cada sociedade tem o direito
de debater e encontrar seus próprios caminhos
e que é preciso respeitar a soberania dessas
sociedades em matéria de consolidação
democrática.
Isso é muito diferente
do que ocorreu em Honduras, por exemplo, onde um Presidente
eleito foi deposto e mandado para fora de seu país
na calada da noite, em um capítulo que não
deveria jamais voltar a ser escrito na América
Latina. A Venezuela chegou a viver por alguns dias
um episódio semelhante, com a frustrada tentativa
de golpe contra o Presidente Chávez, mas soube
respeitar a soberania popular e deu solução
apropriada à crise.
Em matéria de relações com os
meios de comunicação, posso falar do
Brasil, e em meu país, a imprensa goza de total
liberdade. Sou duramente criticado no Brasil por boa
parte da imprensa, muitas vezes de forma injusta na
minha opinião, mas isso não altera em
nada a minha convicção de que a liberdade
de imprensa é essencial. Além disso,
quando um determinado veículo se desvia da
sua função, o crítico mais implacável
é o leitor, o ouvinte ou o telespectador, que
nos nossos países está cada vez mais
maduro e mais atento a tentativas de manipulação.
Por isso mesmo, os órgãos de comunicação
que não respeitam o público e distorcem
os fatos, mais cedo ou mais tarde, perdem credibilidade.
Jornalista:
Como acredita que acabará a crise política
de Honduras, levando em conta que o Brasil viu-se
envolvido diretamente nela?
Presidente:
Desde o golpe contra o Presidente Zelaya, a posição
brasileira foi clara, em sintonia com nossa tradição
diplomática e com as manifestações
da comunidade internacional: não há
mais lugar para golpes de Estado na América
Latina. Essa página da História ficou
para trás e não deve mais voltar. O
envolvimento direto ocorreu em razão da decisão
do Presidente Zelaya de pedir proteção
na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, e obviamente
não poderíamos negar essa proteção
a ele ou a quem considere estar com sua vida em risco
por conta das posições políticas
que defenda. Muitos integrantes do meu governo e da
oposição no Brasil tiveram que se refugiar
em Embaixadas estrangeiras durante o regime militar
em nosso país nos anos 60 e 70.
Espero que um acordo político possa solucionar
a crise em Honduras. Vejo que as forças políticas
hondurenhas estão empenhadas nesse sentido,
e, para isso, contam com o apoio da comunidade internacional
e de organismos como a OEA. O que não se pode
perder de vista é que Manuel Zelaya é
um Presidente eleito democraticamente, e esse fato
deve ser respeitado nas negociações.
O Brasil não reconhecerá
um novo governo em Honduras que resulte de eleições
conduzidas por um regime golpista.
Jornalista:
Nesse contexto de crise financeira mundial, até
onde devem chegar os ajustes feitos para que ela não
se repita de novo?
Presidente:
A
crise financeira expôs, de forma clara, os equívocos
da ortodoxia econômica neoliberal que se espalhou
pelo mundo nas últimas décadas, segundo
a qual o mercado resolveria tudo e o Estado deveria
ser mínimo, para não atrapalhar a livre
iniciativa. O resultado disso foi que uma espécie
de cassino tomou conta da economia mundial, com uma
especulação desenfreada que só
poderia levar à catástrofe. Quando a
mão invisível do mercado falhou, foi
a mão visível do Estado que resgatou
a economia mundial da beira do abismo.
Quando a crise chegou, o Brasil estava preparado.
Fomos os últimos a entrar na crise e os primeiros
a sair dela. Enfrentamos bem as turbulências
da economia mundial porque não adotamos o receituário
do chamado Consenso de Washington. O Estado brasileiro
não abdicou de suas funções estratégicas
de regulador e indutor do desenvolvimento econômico
e social. Mantivemos uma robusta rede de bancos públicos
que supriu o mercado interno quando o crédito
externo escasseou. O Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC) tem uma carteira de obras no
valor de US$ 240 bilhões, que não foi
reduzida por causa da crise. Além disso, lançamos
um programa de habitação cuja meta é
construir 1 milhão de novas moradias até
o final de 2010, o que contribui para ampliar a geração
de empregos na construção civil.
Nossa atuação no G20 tem sido coerente
com o que estamos fazendo domesticamente, e, para
nós, é fundamental uma regulação
mais clara do sistema financeiro internacional, capaz
de evitar os erros e o descontrole que levaram à
crise atual. No período de um ano, no qual
o G20 realizou três reuniões de Cúpula,
o balanço é positivo: conseguimos evitar
que a crise se aprofundasse e, em vários casos,
aceleramos a retomada da atividade econômica.
No entanto, acho que precisamos avançar mais
em matéria de regulação e na
reforma do Fundo Monetário Internacional e
do Banco Mundial. Essas organizações
precisam ser democratizadas e refletir o peso dos
países em desenvolvimento na economia mundial.
O Brasil não emprestou US$ 10 bilhões
ao fundo para as coisas fiquem como estavam. Queremos
mudanças profundas nesses organismos.
Jornalista:
Há um desequilíbrio favorável
ao Brasil no intercâmbio comercial com a Venezuela.
Que propostas o Sr. traz para o presidente Hugo Chávez
nesta nova visita? Como estão as negociações
em torno da refinaria Abreu e Lima?
Presidente:
O grande desequilíbrio favorável ao
Brasil no intercâmbio comercial com a Venezuela
é preocupante. Precisamos corrigi-lo. O Brasil
quer e deve importar mais da Venezuela. As negociações
entre a PETROBRAS e a PDVSA vão muito bem.
A importação de petróleo venezuelano
para a refinaria Abreu e Lima vai ajudar a equilibrar
a balança comercial, mas podemos fazer mais.
Uma missão de 100 empresários brasileiros
veio recentemente a Caracas para se reunir com mais
de 350 sócios venezuelanos para identificar
projetos que aumentarão e, sobretudo, equilibrarão
nossas trocas. Vou participar no dia 30 de outubro,
em El Tigre, no Estado Anzoátegui, da primeira
colheita de soja resultante da cooperação
do escritório da Embrapa. Ao construir sua
soberania alimentar, a Venezuela não precisará
importar grande quantidade de alimentos do Brasil.
A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial
(ABDI), que também tem escritório em
Caracas, está ajudando a Venezuela a projetar
fábricas que concorrerão para o esforço
de diversificar a economia venezuelana para além
das atividades petroleiras.
O Sul da Venezuela e o Norte do Brasil poderão
beneficiar-se, de forma sustentada, de suas complementaridades,
levando à melhoria das condições
de vida das populações e do aumento
do comércio. A Venezuela é, como o Brasil,
um país muito bonito. Queremos incentivar o
turismo de todos brasileiros - e em especial os que
vivem nos Estados de Roraima e do Amazonas - às
belíssimas praias da Venezuela.
Jornalista:
Que lição pode ser tirada do debate
regional suscitado pelo uso das bases colombianas
por parte de militares norte-americanos?
Presidente:
O debate tem sido positivo,
e a principal lição é que essas
questões podem e devem ser resolvidas por meio
do diálogo. Para isso, estamos criando e consolidando
instituições regionais como o Conselho
de Defesa da UNASUL, que está atuando bem nessa
questão e deve ter seu papel fortalecido, e
também o Conselho Sul-americano de Luta contra
o Narcotráfico. Como resultado das
conversas com todos os envolvidos na questão
das bases, tenho a convicção de que
eventuais desconfianças serão superadas
e de que sairemos dessa discussão mais unidos.
Esse episódio permitirá que a gente
construa a confiança recíproca entre
os países da América do Sul e abandone
as ultrapassadas doutrinas de defesa. A principal
ameaça à segurança dos países
da região advém da instabilidade gerada
pela pobreza e exclusão social.
Jornalista:
O desenvolvimento militar do Brasil para os próximos
anos também tem despertado desconfiança.
Como administrarão essa situação
no contexto de divergências que se criou?
Presidente:
Além
de contar a seu favor com uma tradição
de convivência pacífica na região
e no plano internacional, o Brasil é adepto
da transparência e da cooperação
em matéria de defesa. É preciso lembrar
que foi o Brasil que propôs a criação
do Conselho de Defesa na UNASUL. Não há
nenhum motivo para desconfianças quanto ao
Brasil nessa área ou em qualquer outra. Nossos
programas de reaparelhamento das Forças Armadas
são conhecidos e são para fins de dissuasão.
Além disso, a descoberta de riquezas como o
petróleo do pré-sal, na costa brasileira,
demandam do Estado uma resposta adequada em defesa
desses recursos, que são de todos os brasileiros,
e é isso o que estamos fazendo.
Jornalista:
O Sr. confia na sua ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo
em 2010, mas os brasileiros estariam preparados para
ter uma mulher como Presidente?
Presidente:
Dilma Rousseff conta com minha total confiança.
A ela confiei o comando do principal programa de obras
do Governo no segundo mandato, o Programa de Aceleração
do Crescimento, e os resultados mostram sua grande
capacidade como gestora e como líder. Sua experiência
acumulada como parte de nossa equipe desde o início,
em 2003, e sua identidade com nosso projeto para o
País asseguram que continuaremos a crescer
e a diminuir as desigualdades sociais e regionais
ainda existentes.
Desde a redemocratização, nos anos 80,
várias mulheres foram eleitas para cargos importantes
no Brasil, como os de prefeitas de grandes cidades
e os de governadoras, e nesses casos a questão
de gênero não fez nenhuma diferença.
É claro que seria uma grande conquista para
as brasileiras fazer história com a eleição
da Dilma, que espero venha a ser a primeira mulher
a assumir a Presidência do Brasil. O caráter
simbólico dessa conquista é poderoso,
e espero contribuir para que ela aconteça.
Jornalista:
No dia 1º. de janeiro de 2011 o Sr. deixará
a presidência, depois de oito anos no poder.
Como gostaria de ser lembrado?
Presidente:
Sinceramente, ainda não parei para pensar nisso,
mas um dia desses brinquei em uma entrevista, dizendo
que vai ser estranho acordar no dia 2 de janeiro sem
ter algum assessor para cobrar ou repreender. O que
posso dizer é que tenho feito o máximo
que posso para realizar um bom Governo e corresponder
à expectativa dos brasileiros, principalmente
dos mais humildes, e que continuarei mantendo esse
foco no comando do País até o dia 31
de dezembro de 2010. Depois, volto para minha casa
em São Bernardo do Campo, com a satisfação
do dever cumprido e o orgulho de poder andar de cabeça
erguida. E com mais tempo para a família e
para os amigos, que me apoiaram tanto ao longo de
décadas de militância sindical e política,
principalmente a partir da posse na Presidência
em 2003. Quanto à forma como serei lembrado,
cabe à História e aos brasileiros o
julgamento.
Hoje, só posso dizer que deixarei o Palácio
do Planalto com a certeza de que fiz o melhor que
pude. E que meu maior orgulho será voltar para
São Bernardo do Campo e continuar a ser chamado
de companheiro pelos meus companheiros.