Palestra
da SAAB AB proferida por Bengt Janer
Câmara dos Deputados
14 de outubro de 2009
Excelentíssimo
Senhor Presidente da Comissão de Ciência
e Tecnologia da Câmara dos Deputados,
Deputado Eduardo Gomes
Excelentíssimos Senhores e Senhoras parlamentares
presentes.
Prezados membros desta mesa.
Senhoras e senhores.
Em nome da empresa SAAB, agradeço a Comissão
de Ciência e Tecnologia, assim como a
Comissão de Relações Exteriores
e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados,
o gentil convite para participar dessa audiência
pública, da mais alta importância
para o esclarecimento do tema “Transferência
de Tecnologia no Programa F-X2”.
Inicialmente, é importante citar que
o Pedido de Oferta elaborado pelo Comando da
Aeronáutica, e aprovado pelo Ministério
da Defesa, foi muito claro e detalhado no tocante
aos requisitos de transferência de tecnologia
de interesse do parque industrial aeroespacial
brasileiro e da própria Força
Aérea Brasileira.
Posso assegurar aos senhores que a proposta
de transferência de tecnologia apresentada
pela Saab ao Comando da Aeronáutica cumpriu
e excedeu o que foi solicitado pelo Pedido de
Oferta.
Senhores Deputados, um processo de transferência
de tecnologia, para ser eficaz, necessita de
atender a quatro requisitos necessários.
Primeiro requisito - deve existir
no país de origem uma entidade detentora
da tecnologia a ser transferida e, no país
de destino, uma entidade capacitada para recebê-la.
Esta é uma condição fundamental.
Não se transfere tecnologia para quem
não está apto para recebê-la.
Segundo requisito - a tecnologia
a ser transferida deve ter uma utilidade para
a instituição, empresa ou governo,
seja esta tecnologia de interesse científico,
comercial ou estratégico. Sem utilidade
para o país receptor, o processo não
tem sentido.
Terceiro requisito –
a metodologia para a transferência de
tecnologia deve ser de uma forma que assegure
que a sua absorção, pelos entes
receptores, seja eficiente e eficaz. A metodologia
utilizada para a transmissão da tecnologia
tem um valor importante no processo.
Quarto requisito - deve ser
proporcionado à instituição,
empresa ou governo receptor da tecnologia todos
os direitos de uso da tecnologia transferida.
É importante que a tecnologia recebida
possa ser utilizada pelas entidades receptoras
sem qualquer restrição comercial
para a manutenção das suas aeronaves,
para melhorias futuras, para incorporação
de novos sistemas e armamentos e para aplicação
em outros produtos, militares ou civis, do seu
interesse.
No caso das tecnologias “duais”,
ou seja, aquelas que podem ser empregadas tanto
para uso civil ou militar, receber uma tecnologia
e não ter direito de utilizá-la
onde for do interesse nacional é inconcebível.
Por isso, obter o total direito de uso da tecnologia
torna-se questão fundamental.
Posso assegurar aos senhores parlametares que
a proposta da Saab atende de forma completa
a todos estes quatro requisitos.
A SAAB está disposta a negociar com a
Embraer, dentro do escopo da parceria estratégica
a ser firmada caso o Governo Brasileiro escolha
o Gripen NG Brasil, a co-propriedade industrial
das tecnologias específicas do Gripen
NG Brasil, tornando aquela aeronave um verdadeiro
produto Embraer-Saab.
Acreditamos que a SAAB tenha sido a única
empresa a oferecer a possibilidade de co-propriedade
intelectual da aeronave ofertada.
A SAAB apresentou, em sua proposta recentemente
entregue ao Comando da Aeronáutica, um
programa de transferência de tecnologia
que inclui:
•
100% de todas as tecnologias solicitadas pelo
Comando da Aeronáutica;
• 100% das tecnologias solicitadas pelas
maiores empresas do setor aeroespacial, em
especial a Embraer;
• Processo de transferência “on
the job training” – Aprender fazendo;
• Responsabilidade por 40% das atividades
de desenvolvimento realizados por empresas
brasileiras;
• Participação em todas
as atividades de desenvolvimento;
• Produção de 80% da estrutura
da aeronave (asas, segmentos da fuselagem,
portas, etc.) por empresas brasileiras, para
todos os Gripens NG a serem produziodos, inclusive
os da Suécia;
• Aviônica produzida no Brasil
Gostaria, agora, de fazer um retrospecto da
história da terceira maior empresa aeronáutica
do mundo, a Embraer, orgulho de todos nós
brasileiros.
A Embraer foi fundada em 1969, fruto da visão
estratégica do Ministério da Aeronáutica
e do Governo Brasileiro.
Foi criada para produzir o Bandeirante, cujos
protótipos haviam sido desenvolvidos
em um dos institutos do CTA.
Para fazer com que a empresa desse o seu “primeiro
grande salto”, era necessário um
auxílio externo, que veio na forma da
transferência de tecnologia da empresa
italiana Aermacchi que, na venda das suas aeronaves
Xavante para a FAB, instalou uma linha de montagem
nas suas instalações.
A metodologia empregada foi a de receber as
primeiras quatro aeronaves montadas da Itália
e, progressivamente, aumentar a carga de trabalho
no Brasil.
Poucos componentes foram fabricados na Embraer.
O objetivo principal era aprender como fazer
produção serializada de aeronaves.
Junto com a implantação da linha
do Xavante na Embraer, vieram o conhecimento
e processos de controle de qualidade, planejamento
de produção e suporte logístico.
Cerca de 200 Xavantes foram produzidos na linha
da Embraer
E isso foi obtido há cerca de 40 anos.
Montar aeronaves em um regime conhecido como
CKD (“Complete knock-down”), ou
seja, montagem de kits produzidos pela matriz,
não agrega nenhuma tecnologia à
Embraer.
O “segundo grande salto” veio novamente
por meio de empresas italianas. A participação
da Embraer no Programa AM-X proporcionou absorção
de conhecimentos na integração
de sistemas, no desenvolvimento de software
embarcado, na integração de armamentos,
nos ensaios e testes em solo e em voo e em diversas
tecnologias de produção principalmente
de peças usinadas complexas.
No Programa AM-X, a Embraer foi responsável
por 30% do projeto e desenvolvimento da aeronave
e por 30% da produção de sua estrutura,
consistindo especificamente das asas, trem de
pouso, entradas de ar e tanque externo de combustível.
Cerca de 50 AM-X foram produzidos pela Embraer
e outros 150 foram produzidos na Itália
com peças e segmentos estruturais brasileiros.
É amplamente reconhecido que sem o programa
AM-X, a Embraer não teria atingido o
patamar que permitiu o desenvolvimento de todos
seus aviões regionais e comerciais. O
Programa AM-X foi o passaporte para a Embraer
alcançar a terceira posição
no ranking mundial da indústria aeronáutica.
E isso foi obtido há cerca de 30 anos.
Produzir peças com base em projetos feitos
na matriz também não agrega nenhuma
tecnologia à Embraer.
O que a SAAB propõe agora ao governo
brasileiro e à Embraer, por meio do Programa
Gripen NG, é o “terceiro grande
salto”.
A SAAB ofereceu como principal componente da
Oferta apresentada ao Comando da Aeronáutica,
a proposta de formação de uma
parceria estratégica com a Embraer, na
qual está prevista atuação
daquela empresa como a principal responsável
por cerca de 40% do processo de desenvolvimento
do Gripen NG Brasil, ficando a SAAB com a responsabilidade
dos 60% restante.
Porém, ambas as empresas participarão
de 100% das atividades de desenvolvimento.
A parceria Embraer-SAAB irá muito além
dos aspectos puramente industriais. O Gripen
NG será um produto Embraer-SAAB. No aspecto
comercial, as duas empresas participarão
das vendas do Gripen NG para todos os clientes
mundiais. Está previsto, também,
que a Embraer será a líder de
venda (“prime contractor”) para
os países da América Latina, e
também para outros, onde a sua penetração,
em termos de marketing, seja mais adequada.
Todo o software da aeronave será desenvolvido
com a participação da Embraer
e poderá ser modificado e alterado no
futuro sem a presença da SAAB.
A proposta da SAAB oferece mais do que simplesmente
“acesso” aos códigos-fonte.
Os softwares críticos de missão,
que incluem todos os softwares de interesse
da FAB, e os respectivos códigos-fonte,
serão desenvolvidos em parceria com a
Embraer, que terá domínio de todo
o conhecimento.
Também será instalado no Brasil
um centro de desenvolvimento de softwares (laboratório
e “rig” aviônico), que ao
lado do pessoal habilitado, são as ferramentas
indispensáveis ao completo domínio
dos sistemas computacionais da aeronave.
É importante ressaltar que "acesso
aos códigos-fonte" não tem
qualquer significado prático caso o ente
receptor não disponha da infraestrutura
adequada (laboratórios e rigs aviônicos)
e, principalmente, de pessoal treinado e habilitado,
que somente será disponível caso
tenha participado do processo de desenvolvimento.
Dentre as mais importantes tecnologias que a
Embraer terá acesso destacam-se:
•
Desenvolvimento de redes de informação,
fusão de dados e informações
e alto nível de integração
de sistemas
• Tecnologias de projeto e produção
de estruturas complexas e que utilizam materiais
avançados tais como materiais compósitos
• Integração de motores
• Integração de radares
• Integração de armamentos
de última geração
• Ensaios em voo de aeronaves supersônicas
• Sistemas avançados de comunicação
e enlace de dados
A proposta da SAAB prevê que a linha de
produção completa das 36 aeronaves
Gripen NG Brasil será implantada no Brasil.
O governo da Suécia propõe incorporar
a nova geração do Gripen na sua
Força Aérea no mesmo cronograma
do solicitado pela FAB, ou seja, a partir de 2014,
isso significa que as exportações
de produtos (80% da fuselagem) e serviços
deverão ter início dentro de pouco
tempo.
A parceria SAAB e Embraer é o que se poderia
chamar de “parceria perfeita”. Isso
porque as duas empresas possuem tecnologias próprias
absolutamente complementares, e não são
competidoras em nenhuma área de negócios,
seja no mercado de aeronaves comerciais, militares
e de aviação executiva.
As empresas também possuem experiências
de parceria de sucesso, como nos programas AEW
(Erieye) para os governos do Brasil, México
e Grécia.
Por essa razão, podemos afirmar sem qualquer
margem de erro, que o nível de envolvimento
daquela empresa no Programa Gripen NG, e consequentemente,
de ganhos tecnológicos e comerciais a serem
aferidos pela Embraer, serão muito superiores
aos do Programa AM-X.
O Programa Gripen NG Brasil será realmente
o “terceiro grande salto” para a Embraer.
Além disso, o Gripen NG para o Brasil estará
equipado com sistemas eletrônicos produzidos
na empresa Aeroeletrônica, localizada no
Rio Grande do Sul, que já fornece sistemas
semelhantes para os Super-Tucanos e F-5 modernizados.
Esta sinergia trará imensos ganhos operacionais
e logísticos para a FAB, além de
gerar centenas de empregos de alta tecnologia.
Os armamentos nacionais serão integrados
no Brasil, com a participação da
empresa Mectron, que atualmente fabrica os mísseis
Piranha, MAR-1, e participa do desenvolvimento
conjunto com a Africa do Sul do míssil
A-Darter, que por feliz coincidência, utiliza
aeronaves Gripen para os seus ensaios de lançamento.
Outro exemplo do processo de transferência
de tecnologia da Saab, e a seriedade com que essa
empresa está comprometida com o desenvolvimento
da aeronave Gripen NG Brasil, é o Akaer,
baseada em São José dos Campos,
empresa de engenharia especializada em projetos
estruturais.
A Akaer já foi contratada pela Saab, independente
do resultado do Programa F-X2, para projetar as
asas e partes importantes da fuselagem.
20 engenheiros estão na Suécia,
desde 30 de agosto, trabalhando no Gripen NG.
Senhores parlamentares, as ofertas de transferência
de tecnologia devem contemplar os quatro requisitos
citados no início desta exposição,
ou seja, que existam entidades nacionais capacitadas
tecnológicamente para absorvê-la;
que a tecnologia a ser transferida tenha utilidade
para as indústrias brasileiras; que a tecnologia
seja transmitida por meio de uma metodologia eficaz
e que seja acompanhada por uma licença
que assegure o total direito de uso para o programa
em tela e para qualquer outro de natureza civil
ou militar.
E ainda, que esse compromisso esteja contido na
Oferta apresentada oficialmente ao Comando da
Aeronáutica.
Finalmente, transferência de tecnologia
não é feita com base em produtos
já desenvolvidos.
Assim, não faz sentido falar em transferência
de tecnologia do motor X, ou do radar Y, ou da
bomba hidráulica Z.
A SAAB e as empresas participantes do Programa
Gripen NG possuem todas as tecnologias de interesse
do Comando da Aeronáutica, inclusive as
relacionadas aos motores aeronáuticos e
radares, e estão disponíveis e autorizadas
para realizá-las.
Finalizando esta pequena apresentação,
gostaria de dizer que o Programa Gripen NG abre
para o Brasil uma oportunidade única de
dotar a sua Força Aérea, em 2014,
com a mais moderna aeronave de caça do
mundo, com equipamentos eletrônicos e sistemas
de auto-proteção com, no mínimo,
10 anos de vantagens tecnológicas sobre
os demais, com uma vantagem incomparável,
o de mais baixo preço de aquisição
e de operação.
Nenhum outro programa utilizará tantos
componentes nacionais, nem proporcionará
a criação de postos de trabalho
de alta tecnologia como o Programa Gripen NG Brasil.
Muito obrigado!
|