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Planejamento militar de Chávez
é de longo prazo
Além dos armamentos já
comprados, expectativa é de garantir aviões,
submarinos, navios e radares até 2010
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
mantém um bem estruturado plano de modernização
das Forças Armadas, projeto de longo prazo
que ultrapassa as compras já formalizadas
de 24 caças Sukhoi (Su-30), 53 helicópteros,
5 mil rifles de precisão Dragunov, um número
não revelado de baterias antiaéreas
do míssil Tor-M1 e 100 mil fuzis Kalashnikov,
russos.
Até 2010, ele quer ter garantido,
ao menos sob contrato, o fornecimento de outros
120 aviões de combate, 15 submarinos lançadores
de mísseis, 138 navios, 25 radares tridimensionais
e fábricas inteiras para produção
de sistemas de defesa. Se possível, quer
ainda alguma capacidade nuclear. É para gerar
energia elétrica, garantiu Chávez
numa apresentação em Moscou, há
quatro meses.
Há dois prováveis parceiros
bem cotados para essa empreitada - a Rússia,
que responde pela maioria das encomendas dos novos
equipamentos de defesa da Venezuela, e o Irã,
de Mahmud Ahmadinejad, que ofereceu o serviço.
Em junho, depois de assinar acordos
com o presidente Vladimir Putin nas áreas
de petróleo, energia, alimentos, petroquímica,
transporte ferroviário, pesca e construção
pesada, Chávez, como é de seu costume,
foi às compras: fechou negócio com
cinco submarinos diesel-elétricos classe
Kilo 636, de 4 mil toneladas de deslocamento e alcance
na faixa de 14 mil quilômetros. O Kilo leva
18 torpedos de 533 milímetros, 24 minas e
8 mísseis táticos ou antiaéreos.
A operação foi mantida
em sigilo até a semana passada, quando foi
revelada por Sergei Landiguin, diretor da agência
russa Rosoboronexport. Em uma outra fase, seria
incorporada uma frota de seis novos modelos Amur,
de 1,6 mil toneladas e dotados de tecnologia furtiva.
Todos esses dados constam, também,
de um documento encaminhado na manhã do dia
30 de outubro pela Nova Organização
pela Democracia Liberal na Venezuela (NDLV) aos
governos do Brasil, da Colômbia, da Argentina,
da Guiana e dos Estados Unidos, à Organização
dos Estados Americanos (OEA) e à Organização
das Nações Unidas (ONU).
O grupo faz oposição
ao presidente Hugo Chávez e é formado
por empresários, políticos e profissionais
liberais. A representação local da
NDLV será aberta em São Paulo até
janeiro.
BOM GASTADOR
Para um ex-governador de Estado da
Venezuela, militante do NDLV, o grande pacote militar
de Chávez vai custar, a longo prazo, cerca
de US$ 60 bilhões - metade de toda a riqueza
que o país produz em um ano. Todavia, acredita
o político, pode ser que em 10 ou 12 anos
tenha valido a pena para o presidente: se tudo der
certo, ele será então o líder
da mais poderosa potência militar da América
do Sul.
Essa condição hoje é
do complexo militar do Brasil. Um estudo da inteligência
do Ministério da Defesa, a que Estado teve
acesso, alerta para a necessidade de investimentos
na revitalização das três Forças
para evitar a superação e a
perda do poder dissuasivo. O texto do ministério
cita especificamente Venezuela e Chile.
Diz que os dois países sabem
exatamente o tamanho dos recursos que terão
a longo prazo, enquanto os comandos brasileiros
não têm segurança dos
prováveis valores do orçamento para
2008. O ministro da Defesa, Nelson Jobim,
acha que a argumentação está
superada. Nosso orçamento foi praticamente
duplicado para 2008 - pode chegar a R$ 10 bilhões
na fase de execução, afirma.
Chávez conta com a valorização
do petróleo para financiar o programa. Quando
começou a negociar a aquisição
de novos equipamentos, o barril era cotado a US$
40. Nos últimos dez dias passou dos US$ 93
e pode chegar a US$ 100. A Venezuela é o
terceiro maior produtor entre integrantes da Opep.
Coloca no mercado 2,4 milhões de barris/dia,
faturando US$ 223 milhões a cada 24 horas.
'Venezuela é adversário
em rota de colisão com o Brasil'
Salvador Raza: diretor-geral
do CeTRIS e *Eliezer Rizzo Oliveira: pesquisador
da Unicamp
Hugo Chávez é uma
preocupação para o Brasil?
Raza - Sim, o Brasil deve ficar
preocupado com Chávez. A Venezuela vem acumulando
densidade estratégica suficiente para contestar
interesses vitais brasileiros e sustentar sua posição
no tempo, seja por meios políticos, seja
por meios militares. A Venezuela é um adversário
em rota de colisão com o Brasil. É
uma rota tortuosa, com os vários desvios
criados pela diplomacia, mas as conveniências
implícitas nas políticas declaratórias
não deixam dúvidas - existe uma disputa
latente. A invasão da Guiana é uma
possibilidade forte nesse quadro, sustentada pela
mesma lógica oferecida para a invasão
das Falklands/Malvinas - um fato consumado de efeito
diversionário de problemas internos. Ao Brasil
restariam duas decisões ruins: não
fazer nada e perder prestígio ou interferir
militarmente e fracassar, pela incapacidade de transportar
e sustentar forças para ações
substantivas.
Eliezer - Chávez é
uma preocupação política e
militar. É inaceitável sua interferência
em movimentos sociais brasileiros. Aliás,
Chávez não é só presidente
da Venezuela, é também el comandante
de um processo revolucionário sul-americano.
É inadmissível o conformismo do governo
Lula com as reeleições ilimitadas
que agora constam da Constituição
chavista. Um movimento de Chávez contra um
vizinho não será surpresa. Um conflito
com a Guiana, por conta da região contestada
a oeste do Rio Essequibo, exigirá que o Brasil
preserve a integridade do território e do
espaço aéreo, proibindo e rechaçando
o trânsito de tropas estrangeiras. No caso,
deve ser considerado o fato de que a Guiana, na
condição de ex-colônia britânica,
receberá apoio da Inglaterra nas ações
de defesa.
* Centro de Tecnologia,
Relações Internacionais e Segurança
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